Quanto de seu cérebro você acha que usa?

Aproveitando um pouco da “onda” do último post que falava sobre algumas questões relativas ao cérebro, e de ilusões que todos nós temos, achei uma boa idéia falar de um mito muito difundido pela internet. Não se sabe a origem exata dele, e pelo que parece até mesmo Einstein ajudou na sua formação ao responder uma pergunta para um repórter sobre o porquê de sua genialidade. Também foi utilizado freqüentemente como fundamento em muitos cursos de auto-ajuda, como por exemplo, nos cursos feitos pela organização Dale Carnegie. Mas afinal de contas, que mito é esse? Tenho certeza que você já ouviu falar dele: a idéia de que os seres humanos utilizam apenas 10% do seu cérebro. Você já conhecia, não é?

Essa história é muito famosa, e também já foi desmentida várias vezes em vários diferentes locais, mas acho que não custa nada postar algo sobre o assunto aqui também. E de certa forma, parece fazer sentido, não? Há pessoas tão inteligentes no mundo, com habilidades tão maiores que as nossas… Pensar que elas são capazes de utilizar um percentual maior do cérebro é uma explicação bem convincente. Não só isso, mas é também subjetivamente satisfatória: deixa espaço para que todos pensem que também tem o mesmo “potencial” que tais gênios, e que se eles se esforçarem o suficiente,  poderiam aumentar o limite do uso de seu cérebro atingindo assim o mesmo nível de raciocínio e genialidade dessas pessoas. E deixa uma brecha até mesmo para justificar a existência de “poderes psíquicos”, que estariam ocultos no potencial subutilizado pelas pessoas comuns.

Mas a verdade é que basta um pouco de lógica para perceber que algo nessa história não soa bem. A primeira coisa que você deve lembrar é: porque acidentes com a cabeça são tão perigosos? Se você tem 90% do seu cérebro “de sobra”, porque um simples acidente pode deixar você com seqüelas graves? Mesmo doenças ou problemas que afetam uma pequena área do cérebro podem deixar pessoas completamente incapacitadas. Basta lembrar da lobotomia, uma cirurgia que antigamente era feita em pessoas com problemas mentais, onde seccionavam-se algumas vias de ligação no cérebro, e isso era o suficiente para transformar pessoas em vegetais; sem qualquer reação a estímulos externos. Acho que essas são evidências mais do que suficientes para  perceber que no cérebro não existem áreas inúteis.

E o motivo para isso é simples. O cérebro é um órgão muito especializado, cada uma de suas áreas tem uma função bem específica. Existem áreas responsáveis pela fala, outras pelas emoções, outra pelos movimentos, outra pelo batimento cardíaco, e assim por diante. Por esse motivo uma lesão no cérebro é tão perigosa – e por isso é muito difícil se recuperar de certas doenças. Somente crianças ou pessoas que já nasceram com uma área menor do cérebro tem uma maior facilidade para se adaptar a essas situações – porque seu cérebro ainda está em formação, e funções que existiriam em uma determinada área são transferidas para outras. Sendo assim, você de fato usa 100% do seu cérebro, em suas diferentes funções e em diferentes intensidades de acordo com a situação. Mas é exatamente essa questão que pode levar a outro tipo de argumento para defender esse mito.

O argumento de que esses 10% que estariam se referindo a algum tipo de índice de atividade. Ele não estaria alegando nada em relação a “área total do cérebro”, mas sim em relação ao potencial das “áreas que usamos normalmente para o raciocínio”. E aqui surge outro grande problema: até hoje não há nenhum teste que consiga afirmar qualquer tipo de limite, teórico ou prático, para o nível de atividade cerebral. Ou seja, simplesmente não sabemos quanto é 100% de atividade – então como alguém pode afirmar que usamos apenas 10%? Esse valor é um chute completo, não seria diferente afirmar que usamos 1% ou 99%. Mas o interessante é que ninguém imagina que usamos apenas 10% do nosso coração ou de nossos olhos, porque apenas o cérebro seria tão subutilizado pelos seres humanos? Que evidência ou indício temos para dar um tratamento tão especial para o cérebro, além da nossa vontade de acreditar nessa afirmação?

E para enterrar de vez essa questão, basta lembrar que já foram feitas diversas análises com pessoas superdotadas. Sejam eletroencefalogramas ou ressonâncias magnéticas, os testes mostram que o nível de atividade dessas pessoas não é muito diferente das pessoas “comuns” – a diferença parece existir na eficiência do processamento e da comunicação do cérebro entre todas suas áreas, e não em algum tipo de “nível de atividade”. Resumindo, não existe nenhum teste que comprove que os superdotados, ou qualquer tipo de gênio, tem um nível de atividade cerebral muito acima daquele que encontramos nas outras pessoas. Se depois disso tudo você ainda quer acreditar que usa 10% do seu cérebro, então tudo bem… Talvez você use – mas garanto que não é o meu caso!

…E sim, eu sou chato. :P

2 Respostas para “Quanto de seu cérebro você acha que usa?”

  1. Erukusu Disse:

    Pensava que era só 10% O__O

  2. Jhon Smith Disse:

    Raul Seixas já dizia :

    É você olhar no espelho
    Se sentir
    Um grandessíssimo idiota
    Saber que é humano
    Ridículo, limitado
    Que só usa dez por cento
    De sua cabeça animal…

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