Vamos iniciar esse post com uma tradução direta da abertura de um artigo recente (artigo esse que você deveria ler) publicado pela Scientifc American: “Você já foi para o telefone ligar para um amigo só para ver o telefone tocar, e ao atender, perceber que foi exatamente esse mesmo amigo quem te ligou primeiro? Quais são as chances disso acontecer? Não são altas, mas a soma de todas as probabilidades é igual a um. Dadas oportunidades suficientes, anomalias isoladas – mesmo aparentes milagres – irão eventualmente acontecer.” Na verdade, eu nunca passei por isso, mas já passei por situações semelhantes. E imagino que todo mundo tem uma ou duas histórias de coincidências incríveis para contar.

- Imagem por: Matt Collins
Como entender algo sobre probabilidades? Isso é algo muito mais difícil do que parece. A maioria das pessoas tem uma noção muito superficial sobre esse conceito. Quando alguém fala de probabilidade, quase todos associam imediatamente a eventos que aconteceram, seja em suas vidas ou em qualquer outro lugar, que elas acreditam ter uma pequena chance de ocorrer. Pode ser o exemplo citado logo no primeiro parágrafo, ou pode ser que você tenha encontrado uma nota de dois reais no chão da rua justamente no momento em que você precisava do dinheiro para pegar um ônibus, ou qualquer outro evento. Não é uma visão errada, mas é incompleta.
Todos esses eventos têm, sim, uma probabilidade pequena de acontecer. E ficamos surpresos quando eles acontecem. Mas o problema é que todo dia acontecem milhares de outros eventos cuja probabilidade é igualmente pequena, e não damos à mínima. De fato, a maioria dos eventos do nosso dia-a-dia podem ser considerados como “pequenos milagres”. Digamos que em um sábado qualquer você sai de casa, e ao chegar ao ponto de ônibus, você encontra seis pessoas. Pense bem: quais são as chances de você sair de casa no exato dia, chegando ao ponto no exato momento, encontrando aquelas exatas pessoas?
Imagine que cada uma delas tem seus próprios hábitos, está lá por um motivo diferente, tem uma vida completamente diferente. Compare com o número de pessoas que pegam ônibus naquele mesmo ponto. Quais são as chances desse evento ocorrer? Possivelmente é ainda menor que o telefonema do seu amigo, mas não ficamos impressionados com esse tipo de acontecimento. E por quê? Essa é a primeira grande ilusão da probabilidade: só pensamos nela quando um evento tem um significado relevante para nós. Sim, todos vivenciam situações que parecem absurdamente improváveis, mas a verdade é que elas são muito mais comuns do que temos consciência.
Citando Robert Novella no artigo “O Poder da Coincidência”: “O verdadeiro significado de coincidências bizarras pode ser compreendido mais plenamente com o que é chamado de a lei dos números verdadeiramente grandes. Esta lei da estatística amplamente aceita declara que com uma amostra grande o suficiente, mesmo um evento extremamente improvável torna-se provável, e portanto qualquer coisa ultrajante está fadada a acontecer. Um exemplo notável disto ocorreu há alguns anos atrás quando uma mulher de Nova Jersey ganhou duas loterias no prazo de quatro meses. Os jornais anunciaram amplamente que é era uma coincidência de um em dezessete trilhões . Tecnicamente falando, isto é correto; mas é enganador porque é baseado em uma perspectiva muito estreita.”
Isso é reforçado ainda mais por uma característica básica do pensamento humano, que na psicologia é conhecida como “desvio para a confirmação” (do inglês, “confirmation bias”). Basicamente, é o hábito que todos temos de lembrar somente dos eventos que confirmam o nosso raciocínio, o que é completamente natural e esperado. Esse tipo de comportamento pode ser percebido facilmente sempre que o objeto de análise é algo que chama a nossa atenção. Por exemplo, no dia em que você está com pressa para chegar em casa, você sempre acha que a sua faixa de trânsito está mais lenta que as faixas do lado. Isso pode causar para você a impressão de que você sempre fica na faixa mais lenta. Acontece que você não se lembra dos dias em que sua faixa foi a mais rápida, justamente porque nesses dias você não estava com pressa, e esse evento não te marcou o suficiente para chamar a sua atenção.
A verdade pode ser difícil de se aceitar, mas precisamos reconhecer, nós não entendemos nada sobre probabilidades. Nada mesmo. Sempre que tentamos usar um exemplo ou afirmar que algo vai “contra as probabilidades” é quase certeza que estamos falando uma bobagem enorme sem perceber – e uma bobagem que a maioria das outras pessoas “engole” porque é igualmente incapaz de analisar a veracidade da afirmação. Por isso, da próxima vez que você ler um texto que fala de probabilidades, que ouvir um amigo falando delas, ou ver algo na televisão sobre o assunto, desconfie: qual é a probabilidade de que eles estejam fazendo uma enorme confusão?



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