Parece coisa de ficção científica, mas não é. Acaba de ser aprovada recentemente nos Estados Unidos, pelo senado, uma lei contra o “preconceito genético”. Ou para sermos mais específicos, uma lei que proíbe a discriminação de pessoas, por empresas de seguro de saúde e empregadores, por conta de seus genes. E não é a primeira vez que eles tratam desse problema, em 2005 o congresso fez uma tentativa semelhante. A primeira coisa que surge em nossa mente ao ler sobre isso, é um velho amigo, o filme Gattaca. Já comentado mais de uma vez aqui no blog – fica até chato repetir – , mas é impressionante a semelhança entre o que está acontecendo e o que acontece no filme.
Para o pessoal que viveu em uma caverna nos últimos 10 anos, Gattaca conta a história de um homem que quer ser astronauta, mas que não é aceito porque tem uma tendência genética de ter problemas no coração – e por isso, não é considerado como uma opção válida. Pensar que planos de saúde podem vir a recusar pessoas por descobrir certas tendências em seus genes é o primeiro passo para se chegar ao que já aconteceu na ficção. Nos Estados Unidos, tornam-se freqüentes os exames do material genético para se descobrir predisposição a doenças, e começar um tratamento preventivo. Mas ninguém imaginava que esse tipo de análise fosse criar tantos problemas.
Citando mais uma vez o filme, nele vemos uma espécie de “currículo genético” que as pessoas apresentam, não só para conseguirem emprego, mas para se relacionarem amorosamente (como se as relações amorosas da atualidade já não tivessem problemas o suficiente). É claro que estamos muito longe disso, contudo, não é difícil imaginar que algo parecido pudesse acabar acontecendo mais cedo ou mais tarde; só não sabíamos que seria tão cedo! Se hoje as empresas já poderiam estar selecionando candidatos de acordo com as informações obtidas em seus genes, imaginem o que pode vir a acontecer nos próximos 50 anos, com a popularização desse tipo de exame? Hoje o uso da engenharia genética nos seres humanos é algo improvável, por ser uma técnica que os cientistas ainda não dominam o suficiente. Mas não há a menor dúvida que daqui a alguns anos, a possibilidade de estarmos usando técnicas para modificar os genes de embriões, seja para retirar predisposições a doenças, ou até mesmo para mudar a cor dos olhos ou outras coisas menos “relevantes”, não pode ser descartada.
E por que isso? Porque é uma tendência natural de nossa espécie. Supondo que os cientistas tenham, em um futuro não tão distante, a capacidade de retirar qualquer predisposição genética a determinadas doenças de um zigoto. Ou seja, criar a possibilidade de uma criança ter a chance de uma vida muito mais saudável que seus pais, não seria algo tentador? Hoje isso ainda é um sonho, tanto porque não conhecemos o suficiente sobre o nosso DNA, e outro tanto porque as técnicas usadas ainda podem causar problemas no desenvolvimento dos embriões. Mas e quando nós tivermos o conhecimento necessário, e quando a técnica estiver suficientemente refinada? Se você pode ter um filho saudável, por que iria correr o risco de deixar que ele tenha uma doença?
Voltando ao filme Gattaca…
Já é possível imaginar o impacto que essas primeiras crianças “geneticamente melhoradas” (note as aspas, porque temos que tomar muito cuidado com essa afirmação) poderão causar em nossa sociedade. Além, da possibilidade do futuro sombrio e segregador do filme poder vir a se tornar realidade – fazemos votos que não – , muitos grupos religiosos poderão encarar essas pessoas como aberrações, como algum tipo de “violação da natureza”. Outros vão estar no extremo oposto, e vão sentir inveja dessas crianças, que teriam uma vantagem “artificial” sobre elas. E algumas pessoas ainda iriam claramente se sentir atraídas por esses indivíduos, que possivelmente poderiam apresentar características que os destaquem dos demais. No filme vemos como os modificados geneticamente são preferidos socialmente em detrimento dos que foram concebidos biologicamente e que, por isso, possuem as imperfeições comuns e características da raça humana.
Outra possibilidade é que empolgados com as novas descobertas alguns cientistas resolvam ir um pouco mais além e comecem a criar seres humanos potencializados, melhorados, geneticamente modificados… transgênicos. Concordo que talvez esta seja uma viajem muito grande, mas se levarmos em consideração que hoje a implantação de um novo gene em um DNA diferente do seu de origem já é uma realidade corriqueira em plantas, e é algo em estudo em animais (lembram das ovelhas capazes de produzir lã com a força da teia da aranha), esta é uma previsão até considerável. Nada tão drástico como o exemplo do nosso amigo ao lado, mas é possível imaginar seres humanos com um sistema imunológico melhorado, ou com a capacidade de regenerar membros como os répteis!
É claro que qualquer tipo de descoberta que venha a melhorar a nossa vidinha aqui na Terra e tornar a nossa existência mais aprazível é extremamente importante. E as pesquisas genéticas já mostraram que possivelmente, trarão uma enorme gama de conhecimentos que nos farão ter um estilo de vida melhor. Mas é sempre importante ficarmos atentos para que desvios, como os que aconteceram com os aviões de Santos Dumont ou com a bomba atômica, não voltem a acontecer. Por isso essa lei americana, que só está esperando a sanção do seu presidente para entrar em vigor, é tão importante e instigante. Ela pode ser o primeiro passo para que o triste apartheid genético, mostrado em Gattaca, não venha a ter chances de acontecer. Ou mesmo ser um aviso para que mais uma vez tendo descoberto o fogo, a história não acabe com a abertura da caixa de Pandora.



13 13UTC Maio 13UTC 2008 às 19:09 |
Adorei o texto, de muito bom gosto o tema e a maneira que foi abordado, de forma crítica e inteligente, mostrando os vários angulos de visão que pode ser observado o assunto, que é muito polêmico e de relevante importância para o desenvolvimento da ciência e da vida.
18 18UTC Maio 18UTC 2008 às 18:08 |
Olá!
Mais uma vez um post muito interessante e crítico de vocês! Parabéns! O blog de vocês apresenta discussões muito interessantes.
Ah, estava olhando umas coisas na net e vi um site muito interessante que me fez lembrar vocês: http://www.caiunateia.com
Lá tem algumas coisas de tecnologia, coisas esdrúxulas diga-se de passagem…
Abraços e continuem assim!
P.S.: o Homem-Aranha não é transgênico! rsrsrs