Não faltam hoje, livros de divulgação científica. Indo para qualquer livraria você acaba encontrando uma estante com vários deles. Alguns mais famosos que outros, certamente você já deve ter ouvido falar do “O Universo numa Casca de Noz” de Stephen Hawking, ou do “O Gene Egoísta” de Richard Dawkins. Mas mesmo com vários livros falando das descobertas da ciência, não temos muitos livros comentando a história da própria ciência, do que a define e como ela se constrói.
Pois esse é exatamente o caso do livro que vou comentar hoje. Ele se chama “Grandes Debates da Ciência”, e foi escrito por Hal Hellman, com tradução de José Oscar de Almeida Marques. Do que esse livro trata, afinal? Não é difícil perceber pelo título que ele conta a história de momentos de grande polêmica no campo científico. São momentos de quebra de paradigmas, onde uma visão anterior é substituída por uma visão mais coerente, e que é condizente com os fatos descobertos. O livro trata de dez “brigas” espetaculares, que serviram como ponto de partida para o desenvolvimento de novas teorias, e muitas delas são usadas até hoje. Dentre os “figurões” citados no livro, temos Darwin, Voltaire, Freeman, e muitos outros.
Mas mais importante que a simples contextualização desses eventos, e as implicações no conhecimento científico, é entender porque eles aconteceram. Nesse livro vemos o lado mais humano dos cientistas, que brigam por suas preferências, discutem de forma agressiva, as vezes ofendendo uns aos outros, ignorando opiniões contrárias… Nada muito diferente de qualquer discussão que temos com nossas famílias ou amigos. Obviamente muitos desses debates aconteceram há muito tempo, quando a ciência ainda não havia se desenvolvido como hoje, e em alguns casos mesmo a base de campos como a genética ou cosmologia mal engatinhavam. Não é surpreendente que em alguns casos, essas discussões se mostravam mais opinativas do que técnicas.
Hoje esses debates são (ou ao menos parecem ser) mais civilizados e embasados, mas no íntimo os cientistas não mudaram – por maior que seja o progresso da ciência, o nosso progresso como espécie não foi relevante, e ainda somos os mesmos homens que pintavam desenhos em cavernas e viviam como nômades. E por isso mesmo, muitas vezes as razões para suas críticas estão muito mais relacionadas a sua preferência ou gosto pessoal do que uma falta de cuidado, erro de metodologia, ou algum problema na base de uma nova pesquisa. O ego ainda fala muito alto, e quando uma briga dessas começa, é difícil entender o que qualquer um dos lados está falando no meio de tanta gritaria.
Ninguém duvida que o método científico é de longe o método de análise do mundo de maior sucesso já inventado pelo homem – ou ao menos, ninguém sensato duvidaria. Mas a ciência não é uma entidade própria, não existe em si mesma, mas como extensão dos trabalhos dos diversos cientistas que todo dia, publicam mais e mais artigos, fazendo novas descobertas. Há muitos erros que ainda vamos descobrir em nosso conhecimento, e há muitas descobertas que ainda são desprezadas pela dificuldade em aceitar algo novo e abandonar o caminho seguro que já foi trilhado. Ninguém quer aceitar que andou pelo caminho errado, especialmente alguém que pode ter dedicado grande parte de sua vida a esse erro.
O que esses debates do livro nos ensina, é que devemos ser humildes. Que certezas de hoje podem ser erros históricos de amanhã. Que grandes cientistas do passado podem ser lembrado muito mais pelos seus erros do que seus acertos. E isso é válido ainda hoje! Certamente já andamos bastante desde a época de Newton e Galileu, mas o futuro sempre foi (e continua sendo) uma incógnita que só será compreendida quando estivermos lá!



